Umbanda tem fundamento: inteligência artificial não cria axé
Falo aqui a partir da minha vivência, da minha caminhada e da minha responsabilidade espiritual. Sou umbandista, ogã há mais de 40 anos, e tudo o que digo vem do chão do terreiro, do toque do atabaque, do convívio com entidades e do respeito aos fundamentos da Umbanda.
Tenho visto, com muita preocupação, músicas criadas por inteligência artificial sendo tratadas como pontos de Umbanda, inclusive sendo tocadas em terreiros. Preciso ser claro: isso é um erro grave.
Essas músicas não têm axé.
Não carregam energia espiritual.
Não foram sopradas no ouvido por entidade alguma.
Ponto cantado nasce do plano espiritual. Ele vem da entidade, da falange, da vibração correta, do momento certo. Um ponto verdadeiro carrega fundamento, história, força e propósito. Ele firma corrente, chama guia, sustenta trabalho. Nada disso pode ser reproduzido por um algoritmo.
Música criada por inteligência artificial é apenas isso: tecnologia. Não há espiritualidade, não há ancestralidade, não há conexão com o sagrado. Não importa se o ritmo lembra um ponto, se a letra “parece” bonita ou se emociona — sem fundamento espiritual, não há axé.
Entendo que essas músicas possam ser usadas em TikTok, redes sociais, vídeos ou conteúdos digitais, desde que com muito cuidado e consciência, deixando claro que se trata de algo artístico ou tecnológico. Mas dentro do terreiro, no espaço sagrado, isso não deve acontecer.
O terreiro não é palco de teste.
O atabaque não é trilha sonora.
O ponto não é entretenimento.
Misturar inteligência artificial com ritual é desrespeitar os guias, os mais velhos, a tradição e a própria Umbanda. Modernidade não pode passar por cima de fundamento.
Umbanda é espiritualidade viva, passada de boca em boca, de geração em geração, sustentada pelo axé, pelo respeito e pela verdade. E isso, definitivamente, nenhuma inteligência artificial é capaz de criar.
Essa é a minha opinião, firmada em mais de quatro décadas de fé, trabalho e compromisso com o sagrado.
