Placas de identificação de terreiros estão sendo arrancadas no Rio Grande do Sul— e o que isso revela sobre a intolerância religiosa
Rio Grande do Sul — Casos recentes de placas de identificação de terreiros de religiões de matriz africana sendo arrancadas ou destruídas em diferentes pontos da cidade do Rio Grande do sul reacenderam o debate sobre intolerância religiosa e racismo religioso no Brasil. As placas, que indicam espaços de culto do Candomblé e da Umbanda, fazem parte de políticas públicas voltadas ao reconhecimento, à valorização cultural e à proteção desses territórios tradicionais.
Segundo lideranças religiosas, os atos não são isolados nem aleatórios. Para mães e pais de santo, a retirada das placas representa uma tentativa simbólica de apagar a presença histórica e cultural dessas religiões nos bairros onde estão inseridas. “Quando arrancam uma placa, não estão apenas destruindo um objeto físico. Estão dizendo que aquele espaço não deveria existir”, afirma uma iyalorixá da zona norte da cidade, que prefere não se identificar por medo de represálias.
As placas fazem parte de iniciativas municipais e estaduais que buscam mapear e reconhecer oficialmente os terreiros como patrimônios culturais e espaços de resistência histórica da população negra. A destruição desses sinais públicos pode ser enquadrada como crime de intolerância religiosa, previsto na Lei nº 7.716/1989, além de violar princípios constitucionais como a liberdade de crença e de culto.
Dados de organizações de direitos humanos mostram que o Rio de Janeiro está entre os estados com maior número de denúncias de intolerância religiosa no país, sendo a maioria dos casos direcionada a religiões de matriz africana. Especialistas apontam que esse tipo de violência está diretamente ligado ao racismo estrutural, já que essas religiões têm origem africana e foram historicamente marginalizadas desde o período colonial.
Para pesquisadores da área de ciências sociais, a retirada das placas é também uma disputa pelo espaço urbano. “É uma forma de dizer quem pode ou não ocupar o território, quem é visível e quem deve permanecer invisível”, explica um sociólogo da UFRJ. Segundo ele, a intolerância religiosa muitas vezes se manifesta de maneira silenciosa, mas com impactos profundos na vida das comunidades atingidas.
A Prefeitura do Rio Grande do sul informou, em nota, que está ciente dos casos e que novas placas serão reinstaladas, além de reforçar campanhas educativas sobre diversidade religiosa. Já representantes de terreiros cobram mais do que reposição: pedem investigação, responsabilização dos autores e políticas públicas contínuas de proteção.
Enquanto isso, lideranças religiosas reforçam que a luta vai além das placas. “Elas são importantes, sim, porque dão visibilidade e reconhecimento. Mas o que queremos, acima de tudo, é respeito”, resume um babalorixá da zona oeste. O episódio expõe que, apesar dos avanços legais, a intolerância religiosa ainda é uma realidade concreta — e visível — nas ruas do Rio Grande do Sul.
A repercussão do vídeo, registrado e divulgado pela página Batuque do Rio Grande do Sul, reforça que o problema vai além de um bairro ou estado. Para as comunidades atingidas, a luta segue sendo por respeito, visibilidade e o direito de existir.
