DefaultUmbanda

O Caboclo das Sete Encruzilhadas: Um Mito Fundador da Umbanda Brasileira

O Caboclo das Sete Encruzilhadas: Um Mito Fundador da Umbanda Brasileira

A Umbanda é uma religião brasileira que mescla elementos africanos, indígenas e europeus, formando uma rica tradição espiritual. No centro dessa religião, encontramos uma figura icônica e controversa: o Caboclo das Sete Encruzilhadas. Neste artigo, exploraremos a história e o mito em torno do Caboclo das Sete Encruzilhadas, sua influência na fundação da Umbanda e as discussões contemporâneas sobre seu papel nessa religião.

Origem do Caboclo das Sete Encruzilhadas

A história do Caboclo das Sete Encruzilhadas está intrinsecamente ligada à vida do médium Zélio Fernandino de Morais. Segundo a crença da Umbanda, Zélio teria sido incorporado pelo espírito do Caboclo das Sete Encruzilhadas e guiado espiritualmente na fundação da religião. O Caboclo afirmava ter sido, em uma vida anterior, o frei jesuíta Gabriel Malagrida, um notável taumaturgo que foi queimado vivo em Portugal sob acusação de bruxaria pela Inquisição. Além disso, ele alegava ter reencarnado posteriormente como um indígena no Brasil.

Após várias tentativas de manifestação em diferentes centros espíritas, o Caboclo das Sete Encruzilhadas finalmente encontrou receptividade na Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, inicialmente localizada em São Gonçalo e, posteriormente, em Boca do Mato, Cachoeiras de Macacu. Este espírito desempenhou um papel crucial na história da Umbanda, uma vez que teria sido o impulso para a fundação da primeira casa espírita umbandista.

A Fundação da Umbanda e a União Espiritista de Umbanda do Brasil

Em 1939, o Caboclo das Sete Encruzilhadas orientou a criação da Federação Espírita de Umbanda, posteriormente conhecida como União Espiritista de Umbanda do Brasil. Esta organização tinha o objetivo de servir como um núcleo central doutrinário e reunir os templos umbandistas.

A entidade trabalhou incansavelmente até meados da década de 1970, quando Zélio Fernandino de Morais faleceu aos oitenta e quatro anos de idade. Uma característica única do Caboclo das Sete Encruzilhadas é que ele não deu nome a uma falange espiritual, e não houve, na Umbanda, outra manifestação sob esse nome após a morte de Zélio. Sua presença passou a ser associada à proteção e zelo pela religião.

O Mito e a Controvérsia em Torno de Zélio

A história de Zélio como fundador da Umbanda tem sido objeto de debate e controvérsia. Alguns pesquisadores argumentam que considerá-lo o precursor da religião é resultado de um processo de embranquecimento, pois a Umbanda já era praticada por negros e seus descendentes no Brasil antes de Zélio.

Lucas de Lucena Fiorotti, sociólogo e autor da página Abrindo a Gira no Instagram, afirma que Zélio se tornou uma figura importante no contexto da Umbanda hegemônica, mas que sua narrativa é uma tentativa de embranquecimento da religião. Ele alega que Zélio foi “usado” para encarnar a Umbanda da democracia racial, apagando as raízes africanas da religião.

As Raízes Anteriores da Umbanda

Há evidências de que práticas semelhantes à Umbanda já eram realizadas por africanos e seus descendentes no Brasil antes de 1908. A palavra “Umbanda” vem das línguas quimbundo e umbundu da África Central e significa “arte ou maneira de curar”. Essa prática espiritual e medicinal já era comum entre os centro-africanos muito antes da fundação da Umbanda por Zélio.

Portanto, a narrativa de Zélio como fundador da Umbanda é questionada por aqueles que acreditam que a religião já existia antes de sua experiência em 1908. Isso levanta questões sobre a verdadeira origem da Umbanda e como sua história foi moldada ao longo do tempo.

A Importância das Sete Encruzilhadas

Por que o Caboclo das Sete Encruzilhadas recebeu esse nome peculiar? A resposta está na própria ideia umbandista do que é uma encruzilhada. Estar na encruzilhada é desejável na Umbanda, pois representa a multiplicidade de caminhos e possibilidades espirituais. As “sete encruzilhadas” simbolizam o infinito de possibilidades e escolhas espirituais na religião.

Conclusão

A história do Caboclo das Sete Encruzilhadas é fascinante e complexa, refletindo a riqueza da Umbanda como uma religião que incorpora diversas influências culturais e espirituais. Embora haja controvérsias sobre o papel de Zélio como fundador da Umbanda, sua importância na consolidação da religião não pode ser negada.

A Umbanda continua a evoluir e a se adaptar às mudanças culturais e sociais, mantendo viva sua tradição espiritual e sua conexão com as energias da natureza e dos ancestrais. O mito do Caboclo das Sete Encruzilhadas permanece como um elemento central dessa história, representando as muitas encruzilhadas da vida espiritual e as escolhas que cada praticante deve fazer em sua jornada espiritual dentro da Umbanda.

Deixe um comentário